20/02 - 08:00
Milena Prado Neves, especial para o iG
Com o lema antes tarde do que nunca e muita disposição,
os mais “maduros” tomam as carteiras universitárias em busca de realização
profissional e pessoal.
Há algumas décadas, cursar universidade era coisa para
poucos. Não havia grande diversidade de cursos, oportunidade e acessibilidade a
todos. Os profissionais, na grande maioria das carreiras, eram formados no
dia-a-dia de trabalho, e os que eram diplomados se destacavam num mercado de
trabalho em que não havia pós-graduação.
Com o passar dos anos, muitas universidades foram abertas,
cursos novos formados e programas de bolsas oferecidos para que o ensino
superior se tornasse algo tão fundamental para a educação como o ensino
médio.
De acordo com o Censo da Educação Superior de 2008,
realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep),
1,9 milhão de novos alunos ingressou em faculdades naquele ano – um grande
salto, se comparados aos 426 mil ingressantes em 1991.
Apenas o ProUni (Programa Universidade para Todos), em 2010,
está oferecendo 165 mil bolsas integrais e parciais em instituições
particulares de todo o País. Outras 47,9 mil vagas foram oferecidas em
universidades públicas para quem fez o Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem).
Aqueles que não tiveram oportunidade de serem universitários
no passado aproveitam uma nova chance agora.
Dividindo os livros com os filhos
Rosilene de Oliveira, 47 anos, entrou na Universidade São
Marcos, no curso de Administração de Empresas. A filha tinha acabado de se
formar em fisioterapia, e era chegada a hora de investir em si mesma, no seu
estudo e dar um upgrade em seu currículo. “Decidi fazer a faculdade porque
precisava, pelo meu trabalho. Hoje em dia, para o mercado de trabalho não
adianta ter só experiência, tem que ter conhecimento teórico”, explica a
administradora, que se formou em 2006.
Além da faculdade, Rosilene tinha de dar conta do trabalho
em casa como mãe e esposa e da atuação na empresa em que trabalhava. “Estava
parada há muito tempo com os estudos, desde o término do ensino médio, mas
quando decidi cursar a universidade meus filhos e marido me apoiaram bastante”,
comenta.
Apesar de ser mais velha do que seus colegas de classe, ela
vivia os mesmos problemas de um universitário e seus dilemas, e confessa que
chegou a “colar” em uma prova. “A gente é exemplo por não estar na idade em que
a maioria das pessoas cursa universidade, mas uma vez que estamos ali temos as
mesmas dificuldades que qualquer aluno”, explica. Rosilene já planeja a
continuação de seus estudos, pensando em fazer pós-graduação e mestrado, para
poder tornar-se professora universitária.
Bixo aos 68 anos
Aos 71 anos Apólo Natalli recebeu seu diploma de jornalista,
após trabalhar a vida inteira nesta profissão que desde cedo escolheu. Estudou
em uma sala em que seus colegas tinham, em média, 50 anos a menos que ele. No
começo, tamanha diferença foi sentida na bagunça dos jovens, que tanto o
incomodava. “Nos primeiros anos eu era um pouco impaciente e intolerante com a
turma, mas no final do curso falava mais do que eles e era eu quem levava a
bronca”, relembra o jornalista que, atualmente, aos 73 anos, dedica-se à
produção de livros e cartas a jornais com reclamações sobre problemas da
sociedade.
A faculdade trouxe grandes desafios a Apólo, como aprender a
lidar com computador e com os novos paradigmas da profissão. “Para compensar a
minha dificuldade em algumas matérias, estudava bastante sozinho após as aulas”,
comenta.
Foi lá também que Natalli teve a oportunidade de promover
uma grande troca de experiências entre jovem e idoso, mestre e aluno, onde os
papéis constantemente se confundiam. “A faculdade me ressuscitou. Ganhei muito
com a convivência com os jovens”, diz o jornalista, que acredita ter
freqüentado a universidade na melhor hora possível, com a maturidade suficiente
para aproveitar todo o conhecimento ofertado. “Aconselho todas as pessoas com
mais idade a irem para as carteiras universitárias, pois mesmo que tardiamente
vale a pena”, diz.
Do ponto de vista jovem
Denise Pimentel, 23 anos, formou-se jornalista na mesma
turma de Apólo Natalli. Ela comenta que a presença de uma pessoa mais
experiente na sala foi importante para conhecer a realidade e a praticidade da
profissão, que nos primeiros anos de curso os alunos só conheciam na
teoria.
Mas esta mistura de gerações também gera um certo
estranhamento e conflitos. “Eu acho que no começo os alunos mais velhos são
malvistos pelos mais jovens por conta do histórico de Imaturidade X Maturidade.
Com o tempo e a peneira que separa o primeiro do último ano, as coisas tendem a
mudar. Na nossa sala, por exemplo, depois de alguns semestres o Apólo começou a
considerar os nossos comentários e notou que o nosso olhar tecnológico e
moderno poderia ser vantajoso para ele. Em contrapartida, nós também passamos a
vê-lo com respeito e guru para alguns conselhos”, relembra Denise.
O que fica são as trocas de experiências de duas gerações
que aprendem juntas na sala de aula. “O que mais acrescentou foram as
experiências e histórias que ele viveu em um tempo de ‘sonho do jornalismo
romântico’ que nós não chegamos a conhecer”, comenta a jornalista.
Fonte: http://educacao.ig.com.br/us/2010/02/20/os+tiozinhos+da+faculdade+9403100.html